Em 1938, Lee Byung-chul fundou a Samsung em Suwon, na Coreia, como uma empresa de comércio de frutas secas, peixe e macarrão. Oitenta e cinco anos depois, o Grupo Samsung responde por aproximadamente 22% do PIB total da Coreia do Sul — um número que não tem paralelo em nenhuma outra economia desenvolvida do mundo. Nenhum país com renda per capita equivalente à Coreia tem um único conglomerado com esse peso relativo. A Samsung não é apenas uma empresa de tecnologia — é a maior corporação de um país construída em torno de uma família, e a história da corporação e a história moderna da Coreia do Sul são inseparáveis.
O modelo de negócio que permitiu isso tem nome: chaebol (재벌). Conglomerados familiares diversificados que receberam suporte estatal durante o período de industrialização acelerada dos anos 1960 e 1970 sob o governo de Park Chung-hee. O modelo foi eficiente — a Coreia passou de um dos países mais pobres da Ásia para membro da OCDE em menos de 40 anos — mas criou estruturas corporativas com poder político e econômico difícil de escrutinizar. A Samsung é o maior exemplo desse modelo, e também o mais controverso.
O Grupo Samsung responde por aproximadamente 22% do PIB da Coreia do Sul e emprega mais de 300.000 pessoas diretamente no país. A Samsung Electronics sozinha representa cerca de 15% das exportações totais coreanas.
De chips a telas: como a Samsung dominou a tecnologia
A Samsung Electronics — a subsidiária mais conhecida — começou a manufatura de eletrônicos nos anos 1960 com televisores em preto e branco. A virada estratégica que a separou da concorrência foi a entrada nos semicondutores nos anos 1980 — uma decisão que o fundador Lee Byung-chul tomou pessoalmente contra a opinião de seus conselheiros e dos analistas do governo, que consideravam o mercado saturado e o investimento arriscado demais. A Samsung fabricou o primeiro chip de 64KB DRAM da Coreia em 1983 e passou a dominar o mercado de memória DRAM globalmente em menos de uma década.
Hoje, a Samsung Semiconductor fabrica chips usados em dispositivos da Apple, Qualcomm, NVIDIA e praticamente toda empresa de tecnologia relevante do mundo — incluindo concorrentes diretos do Galaxy. A divisão de displays produz as telas OLED usadas nos iPhones da Apple, que também compete com o Galaxy no mercado de smartphones. Essa posição de ser simultaneamente fornecedor e concorrente de seus principais clientes é uma das particularidades da Samsung que não tem equivalente em outra empresa de tecnologia do mundo.
A Samsung fabrica as telas OLED usadas nos iPhones da Apple — enquanto o Galaxy e o iPhone competem diretamente no mercado de smartphones. Essa relação de fornecedor-concorrente é considerada única no setor de tecnologia global.
O chaebol e a família Lee: poder, escândalo e sucessão
O Grupo Samsung é controlado pela família Lee — fundador, filho e neto — em uma estrutura de holding cruzada que permite controle com participação acionária relativamente pequena. Lee Jae-yong (Jay Y. Lee), neto do fundador e atual vice-presidente executivo do grupo, foi preso em 2017 por suborno relacionado ao escândalo de corrupção que derrubou a presidente Park Geun-hye. Foi solto, preso novamente, e finalmente absolvido em 2024 — um processo que durou sete anos e que ilustrou com precisão a complexidade da relação entre os chaebol e o poder político coreano.
A percepção pública da família Lee e da Samsung na Coreia é ambivalente. Por um lado, o orgulho pelo que a empresa representa como símbolo de desenvolvimento — a Samsung é frequentemente citada como prova de que a Coreia conseguiu construir uma marca global de tecnologia quando poucos acreditavam ser possível. Por outro, a concentração de poder em uma única família, a sensação de que a lei é aplicada de forma diferente aos chaebol, e as condições de trabalho em fábricas de componentes na Coreia e no exterior são críticas persistentes que a mídia coreana independente cobre com regularidade.
Samsung e o Hallyu: o patrocínio que não é apenas marketing
A conexão entre a Samsung e o Hallyu vai além do patrocínio. Em 2012, a Samsung foi o parceiro tecnológico oficial de vários grandes shows do K-pop em estádios — fornecendo infraestrutura de transmissão e aplicativos de fã. Os Galaxy phones aparecem em K-dramas com uma frequência que não é coincidência — o product placement em produções coreanas é uma estratégia documentada. O acordo entre grandes gravadoras como HYBE e SM Entertainment com a Samsung para distribuição de conteúdo e experiências em dispositivos Galaxy é parte de uma estratégia coordenada de soft power tecnológico.
Mas há também uma conexão mais estrutural: a Samsung SDS — divisão de serviços digitais — fornece a infraestrutura de streaming para algumas das maiores plataformas de K-content da Coreia. O ecossistema de tecnologia coreano e o ecossistema de cultura pop coreano cresceram juntos, e a Samsung esteve presente em ambos. Para quem acompanha o K-pop e o K-drama no HallyuHub, entender a Samsung é entender parte da infraestrutura invisível que torna possível o acesso global a esse conteúdo.
O futuro da Samsung: chips, IA e a corrida por soberania tecnológica
O mercado de semicondutores está no centro das disputas geopolíticas mais importantes dos próximos 20 anos. A guerra comercial entre EUA e China, o CHIPS Act americano e as restrições de exportação de tecnologia de ponta criaram um momento de reconfiguração em que a Samsung — com fábricas em Hwaseong, Pyeongtaek, Austin e Phoenix em construção — ocupa uma posição crítica. A capacidade de fabricar chips de 2nm e 3nm é um dos ativos mais estratégicos que qualquer empresa pode ter em 2026, e a Samsung está entre as três empresas no mundo com essa capacidade, ao lado de TSMC (Taiwan) e Intel (EUA).
O investimento em inteligência artificial está acelerando. A Samsung Research — divisão de P&D — tem mais de 20.000 pesquisadores globalmente. O Bixby, assistente de IA da Samsung, ficou atrás de Alexa e Siri em reconhecimento, mas a empresa está integrando modelos de linguagem de larga escala nos Galaxy S25 de forma que vai além do assistente de voz — edição de imagem, tradução em tempo real e funcionalidades de produtividade que colocam IA no núcleo da experiência do dispositivo. Para entender como a cultura coreana e a tecnologia coreana se retroalimentam, o HallyuHub é um ponto de partida — e a Samsung é um dos casos mais fascinantes dessa equação.
A Samsung e o K-pop: infraestrutura de um fenômeno global
O papel da Samsung no ecossistema do K-pop é mais direto do que a maioria dos observadores percebe. A Samsung Music (antigo Milk Music) competiu com o Melon no streaming musical coreano. O Samsung Pay integrado ao KakaoTalk facilita a compra de ingressos de shows. A Samsung SDS fornece infraestrutura de data center para plataformas de streaming de K-drama e de distribuição de conteúdo de K-pop em escala global. Quando um videoclipe do BTS atinge 100 milhões de visualizações em 24 horas no YouTube, parte da infraestrutura que serve esse conteúdo para o mundo passou por sistemas da Samsung em algum ponto da cadeia.
A Samsung também investiu diretamente em empresas de entretenimento. A Samsung Venture Investment tem posição em diversas empresas de K-content, e a Samsung C&T — divisão de varejo e moda do grupo — colaborou com marcas de streetwear associadas ao mundo do K-pop em coleções limitadas. Essa presença difusa no ecossistema cultural coreano é característica do modelo chaebol: diversificação que vai além dos produtos core e que cria dependências mútuas entre a empresa e o ecossistema ao redor. Conheça mais sobre a cultura coreana e as forças que moldam o Hallyu no HallyuHub.
O Samsung Innovation Campus é um programa de educação tecnológica que já formou mais de 200.000 jovens em mais de 50 países em programação, inteligência artificial e análise de dados — uma das maiores iniciativas de responsabilidade social corporativa de qualquer empresa asiática.
Outro aspecto pouco discutido da Samsung é sua influência no mercado de trabalho coreano. Ser contratado pela Samsung Electronics — especialmente para as divisões de chips ou displays — é equivalente cultural a entrar nas universidades SKY (Seoul National, Korea, Yonsei): define trajetórias e abre portas. A preparação para os testes de admissão da Samsung (GSAT) é uma indústria paralela no país, com cursos dedicados e livros específicos. Essa relação entre a Samsung e a educação coreana — onde o mérito corporativo e o mérito acadêmico se alinham — é parte do contexto que explica como a Coreia conseguiu construir uma empresa de semicondutores de classe mundial em menos de quarenta anos. O capital humano investido na Samsung é, em certo sentido, o capital humano da Coreia do Sul aplicado em sua forma mais intensa. Para entender essa Coreia que trabalha com essa intensidade e que também produz o K-drama, o K-pop e a cultura que chegou ao mundo, o HallyuHub é o ponto de partida.



