Em qualquer K-drama de escritório, existe uma cena. Os colegas saem do trabalho, caminham em grupo para um restaurante com mesas de grelha embutida, pedem cerveja e soju, e começam a grelhar carne. A cena parece simples. Mas quem entende o que está acontecendo percebe que o Korean BBQ não é um momento de refeição — é um ritual social com regras, papéis e significados que a culinária ocidental raramente codifica com tanta precisão.
O gogi-gui (고기구이) — literalmente 'carne grelhada' — é a categoria geral da churrascaria coreana. O modelo é sempre similar: mesas com grelha embutida a carvão ou gás, pedidos de carnes cruas que são grelhadas na mesa pelo próprio comensal, acompanhadas de banchan (pratos laterais) e folhas de alface ou perilla para enrolar. A diferença entre os cortes, as marinadas, os acompanhamentos e a sequência de consumo é onde está toda a complexidade.
Samgyeopsal — a barriga de porco que define o gênero
Samgyeopsal (삼겹살) é barriga de porco sem marinada, grelhada na chapa até dourar com gordura própria. O nome vem de 'três camadas' (sam = três, gyeop = camadas, sal = carne) — referência às camadas visíveis de carne e gordura no corte. O samgyeopsal é a carne mais democrática do BBQ coreano: barato, sem cerimônia, amplamente disponível. É o corte que os grupos de amigos pedem após o trabalho, que os universitários dividem com doses de soju, que aparece em qualquer pojangmacha que sirva grelha.
A técnica de consumo é fundamental: a carne grelhada é cortada em pedaços com tesoura (não faca) diretamente na grelha, envolta em folha de alface ou perilla com um pouco de pasta de soja fermentada (ssamjang), alho grelhado, pimenta verde e kimchi — formando um ssam (pacote enrolado na folha). O conjunto é colocado inteiro na boca. Comer samgyeopsal em partes separadas, como se fosse uma refeição ocidental, é tecnicamente possível mas culturalmente errado.
O consumo de samgyeopsal na Coreia tem um dia comemorativo não oficial: 3 de março (03/03) — referência ao número 3 repetido, que remete ao 'três camadas' do corte. Restaurantes de samgyeopsal fazem promoções específicas nessa data.
Galbi e bulgogi — a arte da marinada
Galbi (갈비) são costelas bovinas marinadas — normalmente em molho de soja, pera asiática (que age como amaciante natural pela enzima bromelain), açúcar, alho, gergelim e cebolinha. O LA galbi — corte transversal da costela que expõe múltiplos ossos em uma fatia plana — foi desenvolvido pela comunidade coreana-americana em Los Angeles, onde a grelha horizontal facilitava esse corte que em grelhas verticais tradicionais seria impraticável. O LA galbi é hoje mais comum do que o galbi coreano original em muitos restaurantes.
Bulgogi (불고기) — literalmente 'carne de fogo' — é carne bovina fatiada fina e marinada de forma similar ao galbi, mas com cortes mais magros (picanha, alcatra) e textura diferente. O bulgogi tradicional é grelhado numa frigideira rasa ou panela com a marinada, não diretamente na chapa. A versão moderna adaptou o prato para grelha, o que muda a textura mas facilita o consumo coletivo. Bulgogi tem uma doçura pronunciada pela marinada com pera ou kiwi — mais acessível para paladares não habituados à culinária coreana do que o kimchi ou o gochujang.
A grelha embutida na mesa é o elemento central do Korean BBQ — o grupo grelha e consume ao mesmo tempo. Crédito: UnsplashDak-galbi e dwaeji-galbi — aves e versões alternativas
Dak-galbi (닭갈비) é frango marinado em gochujang, cozido em frigideira grande com batata-doce, repolho e tteok — não é tecnicamente grelhado, mas o nome ficou. É especialidade da cidade de Chuncheon, na província de Gangwon-do, e o distrito de Dak-galbi Golmok (Beco do Dak-galbi) em Chuncheon tem dezenas de restaurantes especializados. Para quem não come porco ou boi, dak-galbi é a entrada mais saborosa no mundo do BBQ coreano.
Makchang e gopchang são miúdos bovinos e suínos (intestino grosso e delgado) que têm uma base de fãs fiel na Coreia — especialmente entre os adultos mais velhos. O consumo de miúdos na grelha é uma tradição que os restaurantes especializados preservam com receitas próprias de tempero e limpeza. Para visitantes estrangeiros, é um dos pratos mais desafiantes — mas quem experimenta frequentemente fica surpreso com a textura e o sabor, especialmente com molho de gergelim e sal.
O soju — destilado de arroz com teor alcoólico de 16-25% — é o acompanhamento padrão do Korean BBQ. A combinação samgyeopsal + soju é tão consolidada culturalmente que os dois produtos são frequentemente vendidos juntos em promoção em supermercados coreanos.
O banchan e a estrutura da refeição
O Korean BBQ nunca é consumido sozinho — os banchan (반찬) são os pratos laterais que chegam com a refeição sem custo adicional: kimchi, kongnamul (broto de soja temperado), spinach namul, ovo cozido fatiado, pasta de soja para dipping, folhas de alface e perilla, alho e pimenta para grelhar. A diversidade de banchan é um indicador de qualidade do restaurante. Estabelecimentos mais tradicionais servem oito ou mais banchan; os mais modernos simplificam para quatro ou cinco.
A etiqueta da grelha também tem códigos. Em grupos, a pessoa mais velha ou o anfitrião geralmente começa a grelhar ou delega a tarefa ao mais novo (em dinâmicas corporativas, o júnior frequentemente grelha para os superiores). Não se serve soju para si mesmo — é sempre o vizinho que enche o copo. Essas regras aparecem com precisão em K-dramas de escritório e filmes coreanos, e são uma das formas mais ricas de entender a hierarquia social coreana em contexto informal.
Korean BBQ no Brasil e no mundo
O Korean BBQ se expandiu globalmente de forma acelerada nos últimos dez anos. Em São Paulo, a região da Liberdade tem dezenas de churrascarias coreanas. Em Los Angeles, Nova York, Sydney e Londres, o modelo de grelha na mesa se tornou um dos formatos de restaurante de mais rápido crescimento. O interesse foi catalisado pelo Hallyu — fãs de K-pop e K-drama que queriam experimentar a comida que viam nas telas — mas a fidelização veio pela qualidade real do produto.
Para quem está chegando ao Korean BBQ pela primeira vez, a recomendação é sempre samgyeopsal: sem marinada, sem complicação técnica, com sabor imediato. Adicione ssamjang, alho grelhado e um pouco de kimchi no ssam, e o prato se explica sozinho. A partir daí, o caminho para galbi, bulgogi e cortes mais sofisticados é natural. O Korean BBQ é também uma das entradas mais acessíveis para a cultura coreana em geral — uma refeição que conta muito sobre como os coreanos se relacionam, trabalham e celebram. Explore mais no HallyuHub e conheça os artistas e dramas que fizeram esse universo chegar até você.
O ritual do gogi-gui: muito mais do que uma refeição
O Korean BBQ tem uma dimensão social que vai além da refeição. Nas empresas coreanas, a hweshik (회식) — confraternização de equipe — frequentemente acontece em restaurantes de gogi-gui. A hierarquia que rege o escritório durante o dia relaxa (mas não desaparece) na mesa de grelha: é o espaço onde superiores e subordinados se aproximam fora do protocolo formal, onde conversas que não seriam possíveis na estrutura corporativa acontecem com o auxílio do soju. Para entender a cultura corporativa coreana — que aparece em K-dramas como Misaeng e My Mister — entender a hweshik é fundamental.
Existe também o fenômeno do 1-in-1-out de mesas de gogi-gui: em restaurantes populares de Seul nas sextas-feiras à noite, é comum esperar 30-40 minutos por uma mesa. O tempo de grelha — normalmente entre 60 e 90 minutos por grupo — cria um ritmo natural de rotação. A maioria dos restaurantes de Korean BBQ não aceita reserva, o que significa que quem chega primeiro come primeiro — uma das poucas situações em que a hierarquia coreana cede para a democracia da fila. A democratização do acesso à carne grelhada — que historicamente era restrita a dias especiais nas famílias mais humildes — é também parte do contexto: o samgyeopsal barato tornou o gogi-gui acessível para todas as classes sociais, e isso contribuiu para o caráter universalmente compartilhado do ritual.
A combinação de carnes grelhadas com folhas de alface ou perilla para enrolar (ssam) remonta à Dinastia Joseon, quando servir vegetais frescos com proteína era considerado um sinal de hospitalidade refinada. O princípio nutritivo — equilibrar proteína animal com fibra vegetal — é o mesmo que a nutrição contemporânea valida.
O Korean BBQ que aparece nas telas do K-drama e nos videoclipes do K-pop não é cenografia — é o cotidiano real de grupos de amigos e colegas na Coreia. A comida que você vê nas telas é a mesma que está disponível em restaurantes no Brasil, nos EUA e em dezenas de outros países onde a culinária coreana chegou impulsionada pelo Hallyu. Para explorar mais sobre a cultura coreana por trás do que você vê nas telas, o HallyuHub reúne conteúdo sobre gastronomia, música, cinema e muito mais. O gogi-gui é também uma janela para entender como os coreanos pensam sobre tempo e convívio: sentar ao redor de uma grelha, grelhar aos poucos, comer devagar, encher o copo do outro antes do próprio — tudo isso reflete valores que o K-drama codifica em narrativa. Conhecer o Korean BBQ é conhecer melhor a Coreia do que qualquer guia de viagem consegue transmitir.



