Dark Nuns chegou à Netflix com o peso de dois nomes que sozinhos já justificam o play: Song Hye-kyo e Jeon Yeo-been. Uma, a atriz mais famosa da Coreia do Sul. A outra, a rainha do cinema de gênero depois de Vincenzo e After My Death. Quando o diretor Park Hoon-jung — o mesmo de I Saw the Devil e New World — decidiu colocar as duas num exorcismo de alto risco, a expectativa foi às alturas. O resultado? Um filme que divide opiniões, mas que é impossível de ignorar.

FILME · 2025
Dark Nuns
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O que você precisa saber antes de assistir#
O enredo em poucas palavras (sem spoilers maiores)#
Duas freiras de ordens completamente opostas — uma carismática e impulsiva (Jeon Yeo-been), a outra contida e metódica (Song Hye-kyo) — são convocadas para realizar um exorcismo em um garoto de 12 anos que tem sido consumido por uma entidade que os médicos não conseguem explicar. O que começa como uma missão religiosa vai se tornando cada vez mais pessoal, revelando segredos sobre fé, trauma e o preço de lidar com o mal sobrenatural.
A atmosfera sombria de Dark Nuns mistura horror religioso com thriller psicológicoA dupla que faz o filme funcionar#
O grande trunfo de Dark Nuns é a química — ou melhor, a fricção — entre as duas protagonistas. Jeon Yeo-been entrega uma performance física e intensa: sua freira parece movida por uma fé raivosa, quase desesperada, como se ela precisasse do exorcismo tanto quanto o garoto. É o tipo de atuação que você não esquece porque vai contra o instinto — nenhuma freira de cinema parece assim.
Song Hye-kyo faz o oposto: contenção total. Seu rosto comunica volumes enquanto suas palavras dizem pouco. Para uma atriz conhecida por papéis emocionalmente expressivos em dramas, essa escolha de interpretação é uma surpresa bem-vinda. A combinação dos dois estilos cria uma tensão constante que funciona independentemente do enredo sobrenatural.
Eu queria que as duas freiras representassem dois tipos de fé — uma que grita para Deus e uma que escuta em silêncio. Ambas igualmente desesperadas.
Park Hoon-jung: o mestre do thriller coreano#
Entender Dark Nuns exige entender quem é Park Hoon-jung. Ele é o roteirista e diretor responsável por alguns dos filmes mais sombrios e inventivos da Coreia dos últimos 20 anos. Não é um cineasta de horror clássico — é um cineasta de thriller que usa o horror como ferramenta para explorar violência, moralidade e o que pessoas comuns fazem quando confrontadas com o inexplicável.
- I Saw the Devil (2010): um dos filmes de crime mais perturbadores do cinema asiático — roteiro de Park Hoon-jung
- New World (2013): crime épico sobre infiltração policial em máfia — considerado o melhor filme coreano dos anos 2010 por muitos críticos
- The Wailing (2016): dirigido por Na Hong-jin com roteiro que Park contribuiu — mistura de horror e thriller policial
- The Gangster, the Cop, the Devil (2019): blockbuster de ação que virou franquia, com remake americano em produção
- Dark Nuns (2025): seu primeiro mergulho fundo no horror religioso como diretor principal
O horror religioso na Coreia: um contexto importante#
Filmes de exorcismo e horror religioso têm uma história específica na Coreia do Sul. Diferente do horror americano, onde o catolicismo é o pano de fundo padrão desde O Exorcista, a Coreia tem uma mistura religiosa complexa: protestantismo evangélico forte, catolicismo histórico, budismo popular e xamanismo coreano (musok). Os melhores filmes de horror coreano geralmente exploram esse sincretismo, criando rituais e entidades que não se encaixam em nenhuma caixa religiosa específica.
Você sabia?
A Coreia do Sul tem uma das maiores populações católicas da Ásia — cerca de 11% da população, historicamente perseguida durante a Dinastia Joseon. O primeiro bispo coreano, Kim Dae-gun, foi martirizado em 1846 e é um dos mártires católicos mais venerados da Ásia. Esse histórico de fé perseguida dá uma profundidade particular aos filmes coreanos com temática religiosa.
Pontos fortes do filme#
✓ Prós
✗ Contras
A fotografia que transforma o filme#
Um dos maiores trunfos técnicos de Dark Nuns é a fotografia de Kim Ji-yong. O diretor de fotografia escolheu uma paleta deliberadamente dessaturada, dominada por cinzas azulados e verdes frios, com iluminação que parece vir de velas mesmo em ambientes modernos. Há um trabalho notável de composição assimétrica — os personagens raramente estão centralizados no frame, criando uma sensação constante de desequilíbrio que reforça o tema.
Para quem se importa com craft cinematográfico: preste atenção nas cenas de ritual. A câmera raramente mostra de frente — preferindo ângulos oblíquos e enquadramentos parciais que sugerem mais do que mostram. É uma escolha que aumenta o horror porque ativa a imaginação do espectador em vez de satisfazê-la.
Comparando com outros exorcismos do cinema asiático#
Comparação com outros exorcismos asiáticos
| Horror | Acesso. (1-5) | Atuação | Atmosfera | |
|---|---|---|---|---|
| Dark Nuns (2025) | Slow-burn religioso | 4 | ★★★★★ | ★★★★ |
| The Wailing (2016) | Terror mitológico denso | 3 | ★★★★★ | ★★★★★ |
| Exhuma (2024) | Xamanismo popular | 5 | ★★★★ | ★★★★ |
| The Exorcist (1973) | Clássico católico | 5 | ★★★★★ | ★★★★★ |
A trilha sonora: silêncio como instrumento#
O compositor Kim Tae-seong fez escolhas incomuns para Dark Nuns. Em vez da trilha orquestral convencional de filmes de horror, há longos momentos de silêncio pontuados por sons diegéticos amplificados — passos, respiração, o ranger de madeira velha. Quando a música aparece, é frequentemente coral, evocando missa em latim, mas dissonante o suficiente para criar desconforto. É uma abordagem que premia quem assiste com fones de ouvido em volume alto.
Como assistir: guia prático#
Ambiente certo
Dark Nuns funciona melhor à noite, com luzes apagadas e fones de ouvido. A fotografia escura foi pensada para telas escuras — não assistir em ambiente muito claro.
Contexto cultural
Saber que a Coreia tem uma história de catolicismo perseguido e xamanismo popular enriquece a leitura. O filme dialoga com ambas as tradições.
Paciência com o segundo ato
O filme tem um ritmo irregular — o segundo ato é mais lento. Resista ao impulso de acelerar: algumas informações expositivas são importantes para o clímax.
Foco nas atuações
Mesmo quando o horror recua, observe as expressões das protagonistas. O filme frequentemente conta a história real através de micro-expressões, não de diálogo.
O impacto no contexto da carreira das atrizes#
Para Song Hye-kyo, Dark Nuns representa uma fase de reinvenção deliberada. Depois de The Glory (2022-2023) — em que ela interpretou uma sobrevivente de bullying em busca de vingança — a atriz claramente decidiu abandonar os dramas românticos que a fizeram famosa e explorar territórios mais sombrios. A escolha de Dark Nuns reforça esse compromisso. É um risco calculado: filmes de horror raramente ganham prêmios, mas solidificam credibilidade artística.
Jeon Yeo-been já havia estabelecido sua versatilidade em Vincenzo e nos filmes independentes que fizeram sua reputação. Em Dark Nuns, ela usa toda essa base técnica para uma performance que vai além do que qualquer papel anterior havia exigido dela. Há momentos no terceiro ato em que a câmera simplesmente para em seu rosto e deixa ela trabalhar — e ela entrega.
Você sabia?
Song Hye-kyo e Jeon Yeo-been nunca tinham trabalhado juntas antes de Dark Nuns. As duas fizeram um retiro de preparação de três semanas em um mosteiro real no interior da Coreia para entender a rotina e a mentalidade de freiras. O processo incluiu observar rituais reais, praticar o silêncio monástico e estudar o histórico de casos de possessão documentados pela Igreja Católica coreana.
A recepção: crítica vs. público#
A recepção de Dark Nuns revelou um gap incomum: a crítica foi mais fria do que o público. Enquanto sites especializados de horror dividiram opiniões sobre o ritmo e a resolução, o público da Netflix — especialmente na Ásia e no Brasil — colocou o filme consistentemente no top 10 por semanas. O que explica a diferença? Provavelmente as expectativas: críticos de horror queriam inovação no gênero; o público queria ver Song Hye-kyo e Jeon Yeo-been num thriller de alto calibre. O filme entrega o segundo muito mais do que o primeiro.
Vale o hype?#
Se você vai com expectativa de ser aterrorizado no nível de The Wailing ou Exhuma, pode se frustrar. Dark Nuns é menos um filme de horror e mais um thriller de personagem com elementos sobrenaturais. O verdadeiro horror aqui é humano: a fé testada até o limite, o trauma não resolvido se manifestando como monstro, o preço psicológico de enfrentar o inexplicável. Para quem quer ver duas das melhores atrizes do cinema coreano trabalhando em um material denso, com direção de alto nível, o filme é excelente.
“Dark Nuns não vai te assustar muito. Mas vai te prender do começo ao fim com duas atuações que mostram por que Song Hye-kyo e Jeon Yeo-been estão entre as melhores da Coreia do Sul.”
Dark Nuns (2025)

