Mantis chegou à Netflix praticamente sem campanha de marketing prévia e passou semanas no top 10 global pelo boca a boca. É o tipo de thriller que o cinema coreano faz melhor: um personagem moralmente ambíguo, uma estrutura narrativa que parece simples mas vai complicando de formas inesperadas, e uma última meia hora que redefine tudo que você assistiu antes. Se você não ouviu falar, é o momento de prestar atenção.

FILME · 2025
Mantis
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Ficha técnica#
A premissa: o vigilante que não parece um herói#
Kang Tae-gon (Oh Jung-se) é um funcionário público de meia-idade, sem nada de especial na aparência ou no comportamento, que passa seus dias processando documentos e suas noites investigando e punindo figuras poderosas envolvidas em corrupção sistêmica. O título — "Mantis" (louva-a-deus em coreano, samagwi) — refere-se ao apelido que a mídia dá a esse vigilante misterioso: silencioso, paciente, letal quando ataca.
O que diferencia Mantis da fórmula padrão de vigilante é a recusa do filme em fazer do protagonista um herói. Tae-gon não tem um trauma motivador limpo, não tem princípios morais claros sobre quem merece ser punido, e não tem um código de honra estilizado. Ele tem uma obsessão — e o filme passa boa parte do tempo examinando o que essa obsessão está custando a ele, às pessoas ao redor, e à ideia abstrata de justiça que ele acredita estar defendendo.
Mantis usa a paisagem urbana noturna da Coreia para criar uma atmosfera de tensão contínuaOh Jung-se: um rosto inesperado para um papel assim#
Oh Jung-se é mais conhecido no Brasil por It's Okay to Not Be Okay (2020), onde interpretou o irmão autista de Kim Soo-hyun num papel que lhe rendeu o Baeksang de Melhor Ator Coadjuvante. Escalá-lo como vigilante é uma escolha deliberadamente subversiva: ele não parece um herói de ação. Seu rosto é o rosto de um homem comum. E é exatamente isso que o filme precisa.
A performance de Oh Jung-se em Mantis opera quase inteiramente no silêncio. Há sequências longas em que vemos Tae-gon observando, esperando, calculando — e a câmera simplesmente fica no rosto dele. O ator entrega um personagem que você não consegue ler completamente, o que cria uma tensão constante: a qualquer momento, você não tem certeza do que ele vai fazer.
Eu queria que o espectador ficasse desconfortável com o protagonista. Se você torce para ele sem questionar, o filme falhou. A graça é você querer que ele vença e não saber se deveria.
A corrupção como personagem#
O cinema coreano tem uma relação especial com o tema da corrupção sistêmica — em parte porque a Coreia do Sul tem uma história real e documentada de escândalos envolvendo chaebols (conglomerados), políticos e sistema judiciário. Mantis usa essa tradição para criar um mundo onde a corrupção não é praticada por vilões obviamente malignos, mas por pessoas que encontraram arranjos convenientes e simplesmente pararam de questionar.
Você sabia?
A presidenta Park Geun-hye foi deposta em 2017 num escândalo de corrupção que envolveu a Samsung, o chaebol Lotte e dezenas de figuras políticas. O caso — amplamente cobertor pela mídia e que gerou manifestações de velas com milhões de participantes — criou uma geração de cineastas coreanos profundamente conscientes de como a corrupção sistêmica funciona na prática. Mantis, Kill the Criminal e vários outros filmes da Netflix coreana carregam esse DNA.
A estrutura em três atos que subverte a fórmula#
Atenção: o próximo parágrafo contém informações sobre a estrutura narrativa (não são spoilers de trama, mas de forma). Ato 1: estabelece Tae-gon como vigilante eficaz — vemos sua metodologia, suas regras, seus alvos. Ato 2: uma investigação começa sobre o Mantis, e a câmera começa a questionar se Tae-gon é quem pensávamos. Ato 3: o filme desmonta as certezas dos dois atos anteriores de uma forma que forçosamente vai te fazer rever cenas que você assistiu.
Mantis tem um dos melhores terceiros atos do cinema coreano recente. Sem entrar em spoilers: existe uma virada que não é um "twist" no sentido de informação nova surpresa — é uma recontextualização de tudo que você viu. Muito melhor do que um twist comum porque não depende de enganação, mas de perspectiva.
Referências e linhagem cinematográfica#
Memories of Murder (Bong Joon-ho)
Estabelece o modelo de thriller policial coreano com moral ambígua
The Man from Nowhere / I Saw the Devil
Redefinem o personagem do homem de um propósito no cinema asiático
A Hard Day / Cold Eyes
Confirmam que thriller de precisão é a especialidade do cinema coreano
Parasite (Palma de Ouro)
Globaliza o apetite por cinema coreano que critica estruturas sociais
Mantis
Thriller de vigilante e anti-herói na Netflix — um dos melhores da onda atual
A direção: uma estreia impressionante#
Park Kang estava completamente desconhecido antes de Mantis — é seu primeiro longa-metragem. A qualidade técnica é impressionante para uma estreia: o filme usa uma paleta de cores muito específica (azuis e verdes frios contrastando com o vermelho quente das cenas de tensão), e tem uma consciência de ritmo que muitos diretores veteranos não dominam. Cada cena de Tae-gon em modo vigilante usa câmera na mão; cada cena de sua vida "normal" usa câmera estática e planos estáticos. A mudança de linguagem visual sinaliza ao espectador o estado mental do personagem sem precisar de diálogo.
Vale o hype? Para quem é esse filme?#
✓ Prós
✗ Contras
Se você é fã de Memories of Murder, A Hard Day ou The Yellow Sea — o tipo de thriller coreano que trata seu protagonista como um ser humano falho em vez de um action hero — Mantis é obrigatório. Se você quer ação espetacular com explosões e perseguições, provavelmente vai se frustrar. Este é um filme sobre um homem quieto fazendo coisas terríveis por razões que você vai demorar 90 minutos para entender.
“Mantis prova que o cinema coreano de thriller ainda tem coisas novas a dizer sobre moral, justiça e o que as pessoas fazem quando decidem que o sistema falhou com elas. Veja. Depois veja de novo.”
Mantis (2025)

