Em outubro de 2019, o BTS anunciou um show em São Paulo. Em menos de uma hora, todos os ingressos esgotaram. Não era surpresa para quem acompanhava o mercado: o Brasil já era, naquele momento, o maior consumidor de K-Pop fora da Ásia em várias métricas — streams, visualizações no YouTube, tweets por minuto durante lançamentos, volume de compras de merchandise importado. Mas como isso aconteceu? E quando?
A história do K-Pop no Brasil não começa com o BTS, nem com o Gangnam Style. Começa com fóruns de internet no início dos anos 2000, com fãs que descobriam música coreana por caminhos tortuosos — anime, filmes asiáticos, comunidades no Orkut — e que construíram uma base cultural antes de qualquer visibilidade mainstream. É uma história de nicho que se tornou mercado.
Os primeiros fãs — antes do mainstream
A primeira onda de fãs brasileiros de K-Pop, nos anos 2000, veio principalmente de dois caminhos. O primeiro foi a comunidade nipo-brasileira — o Brasil tem a maior diáspora japonesa fora do Japão, e a proximidade cultural com a Ásia Oriental criou receptividade para conteúdo coreano que chegava via canais japoneses. O segundo caminho foi a internet: fóruns de anime, que também distribuíam J-Pop, começaram a incluir K-Pop quando a Coreia expandiu sua exportação cultural.
Grupos como TVXQ, Super Junior e Girls' Generation tinham fanbases brasileiras organizadas antes de qualquer divulgação em mídia tradicional. Esses fãs operavam em comunidades no Orkut, depois no Facebook, traduzindo letras, legendando vídeos e organizando fandom clubs locais. A infraestrutura do fandom brasileiro foi construída por esses pioneiros — e estava pronta quando o BTS chegou.
O Brasil foi um dos primeiros países a ter fã-clubes oficialmente reconhecidos por agências coreanas fora da Ásia — o SUJU-BR (Super Junior Brasil) foi certificado pela SM Entertainment no início dos anos 2010.
O Gangnam Style e a visibilidade de 2012
"Gangnam Style", de PSY (2012), foi o primeiro K-Pop a alcançar cobertura mainstream no Brasil — programas de TV, rádio e jornais cobriram o fenômeno. Mas o efeito foi ambíguo: trouxe visibilidade, mas também consolidou a percepção do K-Pop como curiosidade exótica. Fãs que acompanhavam a cena há anos ficaram divididos entre a alegria do reconhecimento e a frustração de ver a complexidade da indústria reduzida a um meme.
O legado real do Gangnam Style para o Brasil foi diferente: converteu um número expressivo de curiosos em fãs ativos que descobriram, a partir da música de PSY, o universo mais amplo do K-Pop. O YouTube coreano registrou aumento significativo de tráfego brasileiro no período — e esse tráfego se diversificou rapidamente para outros grupos.
BTS e a explosão de 2017–2019
O BTS foi o ponto de inflexão definitivo. Entre 2017 e 2019, o grupo multiplicou o tamanho da fanbase brasileira de K-Pop de forma que nenhum outro ato havia conseguido. O ARMY brasileiro — como o fandom do BTS é chamado — cresceu de uma comunidade de dezenas de milhares para milhões de pessoas em menos de dois anos. A estratégia do BTS de comunicação direta via Twitter e Weverse funcionou especialmente bem no Brasil, onde o Twitter sempre teve penetração cultural acima da média global.
Os números foram verificáveis: o Brasil consistentemente aparecia entre os três maiores mercados do BTS em streams do Spotify, visualizações no YouTube e volume de tweets durante lançamentos. A HYBE percebeu isso e começou a adaptar estratégias de marketing especificamente para o mercado latino — incluindo anúncios em português, participações em mídia brasileira e, eventualmente, shows no país.
Em 2023, o Spotify registrou o Brasil como o 3º maior mercado de K-Pop do mundo em streams — atrás apenas de Coreia do Sul e Estados Unidos. O número inclui mais de 40 artistas e grupos diferentes, não apenas o BTS.
Por que o Brasil? O que os pesquisadores dizem
A receptividade brasileira ao K-Pop não é acidental. Pesquisadores de cultura pop identificam alguns fatores estruturais. Primeiro, a tradição brasileira de consumir música em idiomas estrangeiros sem barreira — o Brasil sempre foi receptivo a música em inglês, espanhol, italiano, e o coreano não é fundamentalmente diferente nesse contexto. Segundo, a força do Twitter no Brasil criou uma cultura de fandoms vocais e organizados que se alinha com as práticas do K-Pop fandom.
Terceiro — e talvez o mais relevante — a dimensão visual e performática do K-Pop ressoa com uma cultura que já valorizava entretenimento elaborado, dança e construção de identidade coletiva. Os shows de K-Pop com coreografias precisas, lightsticks sincronizados e fandoms organizados não são muito diferentes, em estrutura emocional, das experiências de shows de axé ou do carnaval carioca — comunidade, performance coletiva, identidade compartilhada.
O mercado brasileiro hoje
Em 2025, o fandom de K-Pop no Brasil é diversificado e maduro. Não é mais apenas BTS — BLACKPINK, TWICE, STRAY KIDS, ATEEZ, IVE e dezenas de outros grupos têm fanbases brasileiras organizadas. Lojas especializadas em merchandise coreano operam em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais. Eventos de K-Pop, de convenções de fã a cover dance competitions, acontecem regularmente em cidades de médio e grande porte.
A indústria coreana reconheceu o Brasil como mercado prioritário. Agências enviam representantes para eventos locais, artistas gravam mensagens em português para o Ano-Novo brasileiro, e a discussão sobre uma infraestrutura regular de shows no país — ao invés de visitas esporádicas — avança. O Brasil deixou de ser um mercado surpresa para se tornar parte calculada da estratégia global do K-Pop.
O HallyuHub nasceu precisamente para servir esse mercado: um ponto de referência em português para fãs que querem informação detalhada sobre artistas, grupos e produções coreanas sem depender de tradução de fontes estrangeiras.
A história do K-Pop no Brasil ainda está sendo escrita. Cada novo grupo que estreia, cada show que acontece no país, cada fã que descobre a cena pela primeira vez adiciona um capítulo. Para acompanhar essa história em tempo real — e com profundidade — o blog do HallyuHub cobre a indústria coreana em português com análise, contexto e dados.


