Duas vezes por ano, a Coreia do Sul para. As rodovias ficam congestionadas por dias, os trens esgotam, os mercados se enchem e as famílias percorrem o país inteiro para se reunir. Chuseok e Seollal são as festas mais importantes do calendário coreano — equivalentes funcionais ao Natal e ao Ano-Novo ocidentais, mas com raízes na cultura agrária e no confucionismo que modelam a sociedade coreana há séculos.
Para quem acompanha K-Pop e K-Drama, essas festas aparecem com frequência: idols voltam às cidades natais, dramas especiais de Chuseok são exibidos nas emissoras, e o caos logístico do período é tema recorrente de reality shows e vlogs. Mas o que essas festas significam de fato — e o que revelam sobre a cultura coreana — vai muito além do que aparece na tela.
Chuseok — a ação de graças coreana
O Chuseok (추석) é celebrado no 15º dia do oitavo mês do calendário lunar — geralmente em setembro ou outubro do calendário gregoriano. É originalmente uma festa de colheita: as famílias agradeciam pelos grãos e frutas da temporada, reverenciavam os ancestrais e compartilhavam a abundância. O nome significa literalmente "noite de outono" — referência à lua cheia que ilumina a celebração.
O elemento central do Chuseok moderno é o charye (차례) — rito de reverência aos ancestrais realizado na manhã da festa. A família monta uma mesa elaborada com comidas específicas dispostas em ordem precisa, faz reverências profundas e oferece alimentos aos espíritos dos antepassados. É uma prática confuciana que sobreviveu à modernização e ainda é realizada por uma parcela significativa das famílias coreanas.
O Chuseok é um feriado de 3 dias na Coreia do Sul. Quando cai perto de fim de semana, o país pode ter até 6 dias seguidos de folga — período que gera o maior volume de viagens internas do ano.
A comida típica do Chuseok é o songpyeon (송편) — bolinhos de arroz recheados com gergelim, mel ou feijão, cozidos no vapor sobre folhas de pinheiro. A forma de meia-lua simboliza prosperidade. Em muitas famílias, preparar o songpyeon junto é parte do ritual — e existe a crença de que quem o faz com cuidado terá filhos bonitos. É o tipo de tradição que persiste não porque alguém acredita literalmente, mas porque conecta gerações.
Seollal — o Ano-Novo Lunar
O Seollal (설날) é o Ano-Novo Lunar coreano, celebrado no primeiro dia do primeiro mês do calendário lunar — geralmente em janeiro ou fevereiro. É, em muitos sentidos, a festa mais importante do ano: a família inteira se reúne, os ritos de ancestrais são realizados, e crianças recebem dinheiro de presente dos mais velhos em envelopes especiais chamados sebae-don (세뱃돈).
O rito central do Seollal é o sebae (세배) — reverência profunda feita por membros mais jovens aos mais velhos da família. Após a reverência, os mais velhos oferecem os sebae-don e palavras de bênção para o ano. É uma encenação física da hierarquia familiar que o confucionismo estabelece — filhos honram pais, netos honram avós, a ordem das gerações é reconhecida em gesto.
O sebae-don (dinheiro de Seollal para crianças) tem valor médio de 10.000 a 50.000 won por parente — e em famílias grandes, uma criança pode acumular valores significativos no dia. É a forma mais comum de poupança infantil na Coreia.
A comida do Seollal tem como prato central o tteokguk (떡국) — sopa de bolinhos de arroz em caldo claro. Comer tteokguk no Seollal é equivalente a "ganhar um ano a mais de vida" — a tradição diz que quem come a sopa no primeiro dia do ano novo completa mais um ano. Em dramas, a cena do tteokguk familiar aparece como marcador de virada emocional.
Outras festas do calendário coreano
Além de Chuseok e Seollal, o calendário tradicional coreano tem outras festas relevantes. O Dano (단오), no 5º dia do 5º mês lunar, era celebrado com jogos tradicionais, ritual de banho com plantas medicinais e o balançar em balanços ornamentados (jeonero) — tradição que ainda aparece em parques folclóricos. O Jeongwol Daeboreum (정월 대보름), a Grande Lua Cheia do Primeiro Mês Lunar, é celebrado com nozes, alimentos de grão inteiro e jogos de fogo.
O Día dos Pais (어버이날, 어버이날, 8 de maio) e o Día dos Professores (스승의 날, 15 de maio) são feriados modernos que refletem os valores confucionistas de respeito às figuras de autoridade — pais e mestres. Não são feriados nacionais, mas são amplamente celebrados com flores de cravo (o símbolo do Día dos Pais coreano) e presentes.
O peso da família nas festas coreanas
Entender as festas coreanas é entender a centralidade da família na cultura do país. Mas "família" em contexto coreano tradicional tem um peso hierárquico que vai além do afeto — inclui obrigação, posição, expectativa de casamento, de filhos, de carreira estável. As festas são momentos em que essas expectativas são verbalizadas explicitamente.
Em K-Dramas, Chuseok e Seollal aparecem frequentemente como momentos de conflito familiar — precisamente porque a reunião obrigatória traz à tona dinâmicas que ficam dormentes no cotidiano. A pressão sobre mulheres solteiras acima dos 30, sobre jovens que não têm emprego estável, sobre casais sem filhos: as festas são o pano de fundo perfeito para dramas sobre modernidade versus tradição coreana.
Idols que fazem debut raramente passam o Chuseok com a família durante os primeiros anos — o período é movimentado com especiais de TV, shows e atividades de promoção. É um dos primeiros sacrifícios visíveis da vida de trainee.
Para aprofundar o entendimento da cultura coreana além das festas, o HallyuHub cobre o universo do K-Pop, K-Drama e Hallyu em português. Os artistas e grupos catalogados no site têm contexto cultural que vai muito além das músicas e das telas.


