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As 5 Maiores Gravadoras do K-pop

HYBE, SM, YG, JYP e Starship controlam a indústria do K-pop. Conheça os modelos de negócio, receitas e estratégias de cada uma.

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Redação HallyuHub
31 de março de 20269 min de leitura1 views
As 5 Maiores Gravadoras do K-pop

A indústria do K-pop opera sob um modelo de oligopólio cuidadosamente estruturado. Quatro grandes empresas — HYBE, SM Entertainment, YG Entertainment e JYP Entertainment — concentram a maior parte da receita, dos contratos de distribuição internacional e do acesso às principais plataformas de entretenimento sul-coreanas. Juntas, essas companhias respondem por mais de 70% dos lançamentos que chegam ao topo das paradas nacionais e internacionais, além de dominar os slots de apresentação nos programas musicais de televisão aberta que ainda ditam visibilidade no mercado doméstico. O resultado é um ecossistema no qual entrar sem o respaldo de uma dessas estruturas significa competir em desvantagem sistemática em distribuição, cobertura midiática e acesso a patrocinadores corporativos.

Essa concentração não surgiu por acidente. Ela é produto de décadas de investimento em infraestrutura de formação artística, de um sistema de trainee que garante às gravadoras controle integral sobre o desenvolvimento de seus artistas desde a adolescência, e de estratégias agressivas de expansão para mercados como Japão, China e, mais recentemente, América do Norte e América Latina. O surgimento da Starship Entertainment como força competitiva relevante — especialmente após o debut do IVE em 2021 — demonstra que o oligopólio não é intransponível, mas que romper suas barreiras exige uma combinação específica de backing financeiro, timing de mercado e produto artístico diferenciado.

BTS em frente aos estúdios do Music Bank em 2014, quando ainda eram um grupo de médio porte da então Big Hit Entertainment.BTS em frente aos estúdios do Music Bank em 2014, quando ainda eram um grupo de médio porte da então Big Hit Entertainment.

HYBE

A HYBE — originalmente Big Hit Entertainment — foi fundada em 2005 por Bang Si-hyuk, compositor e produtor que havia trabalhado como diretor criativo na JYP antes de abrir sua própria empresa. Durante quase uma década, a companhia operou como uma label de médio porte sem projeção internacional relevante. Isso mudou em 2013 com o debut do BTS, grupo que Bang Si-hyuk posicionou deliberadamente fora do padrão visual e temático dominante na época: ao invés de polir a imagem dos artistas ao máximo e minimizar controvérsias, a empresa permitiu que os membros abordassem temas como saúde mental, pressão social e desilusão geracional. A aposta funcionou em mercados onde os adolescentes consumidores de K-pop não encontravam esse tipo de narrativa nos grupos contemporâneos.

O IPO da HYBE em outubro de 2020 avaliou a empresa em aproximadamente ₩ 4,8 trilhões (cerca de US$ 4,1 bilhões) no primeiro dia de negociação — uma valorização sem precedentes para uma gravadora sul-coreana e sinal claro de que o mercado enxergava a companhia não como uma label tradicional, mas como uma plataforma de entretenimento escalável. Parte dessa percepção vinha do Weverse, aplicativo próprio de fandom lançado em 2019 que superou 10 milhões de usuários ativos e criou uma fonte de receita direta entre artistas e consumidores, reduzindo a dependência de intermediários como plataformas de streaming ou distribuidoras físicas. A trajetória do BTS nos dez anos de carreira documenta com precisão como esse modelo foi construído em paralelo à ascensão artística do grupo.

A estratégia de crescimento da HYBE após o IPO foi de aquisição agressiva: a empresa comprou a Ithaca Holdings (gestora de artistas como Ariana Grande e Justin Bieber) por US$ 1,05 bilhão em 2021 e criou sub-labels independentes como ADOR, responsável pelo NewJeans. O modelo de sub-labels com diretoras criativas autônomas provou ser tanto uma vantagem competitiva — ao permitir identidades artísticas distintas dentro de um mesmo grupo — quanto uma fonte de vulnerabilidade institucional. Em 2024, a diretora criativa do ADOR, Min Hee-jin, acusou publicamente a HYBE de tentar replicar a fórmula estética do NewJeans em outros grupos da empresa, deflagrando um conflito societário que chegou aos tribunais e expôs as tensões entre autonomia criativa e controle corporativo centralizado.

Fundação2005
SedeSeul, Coreia do Sul
Grupos principaisBTS, TXT, ENHYPEN, NewJeans, LE SSERAFIM
Receita 2023₩ 2,17 tri (~US$ 1,65 bi)
Capitalização 2024~US$ 7–8 bilhões
DADOS

O Weverse, plataforma de fandom própria da HYBE, superou 10 milhões de usuários ativos e se tornou uma das principais fontes de receita direta da empresa, operando com margens superiores às de distribuição física ou streaming convencional.


SM Entertainment

A SM Entertainment, fundada em 1995 por Lee Soo-man, tem a distinção de ser a empresa responsável pela sistematização do modelo moderno de trainee no K-pop. O lançamento do H.O.T em 1996 estabeleceu o template que a indústria adotaria nas décadas seguintes: recrutamento precoce de candidatos com potencial, treinamento intensivo em dança, canto e idiomas por períodos que podiam durar anos, e estreia coordenada com campanha de mídia integrada. Esse sistema — documentado e replicado à exaustão por concorrentes — é a contribuição estrutural mais duradoura da SM para a indústria, independente de qualquer artista específico que a empresa tenha formado.

Ao longo dos anos 2000 e 2010, a SM consolidou uma estética identificável — produção musical eletrônica densa, coreografias de alta precisão técnica, conceitos visuais que alternavam entre futurismo e nostalgia — que ficou associada ao termo 'SM sound'. EXO, lançado em 2012 com doze membros divididos entre subgrupos para China e Coreia, representou a aposta mais ambiciosa da empresa no mercado sino-coreano. A chegada do aespa em 2020, com seu conceito de metaverso e alter-egos digitais, foi analisada como uma tentativa de reposicionar a SM na disputa pela geração mais jovem de consumidores. O universo conceitual do aespa representa a aposta mais elaborada da empresa em storytelling transmídia desde os universos narrativos do EXO na era EXODUS.

A saída de Lee Soo-man da SM em março de 2023 encerrou formalmente quase três décadas de controle do fundador sobre a direção criativa e estratégica da empresa. O processo foi precedido por uma disputa societária intensa: a HYBE tentou adquirir participação acionária relevante na SM com o apoio do próprio Lee Soo-man, que buscava usar a transação para pressionar a diretoria. A Kakao Corporation saiu vitoriosa da disputa, consolidando participação de controle e integrando a SM a um ecossistema que já incluía a Starship Entertainment (adquirida em 2018) e serviços digitais como o KakaoTalk, o aplicativo de mensagens dominante na Coreia do Sul. O resultado foi uma reestruturação significativa da governança da empresa, com impactos ainda em curso sobre a identidade criativa de seus grupos.

Fundação1995
SedeSeul, Coreia do Sul
Grupos principaisEXO, aespa, NCT, SHINee, Red Velvet
Receita 2023~₩ 900 bi (~US$ 685M)
Controlador atualKakao Corporation (2023)
FATO

Lee Soo-man fundou a SM em 1995 e foi o arquiteto do sistema de trainee moderno que a indústria do K-pop adotou globalmente. Ele deixou a empresa em março de 2023 após um conflito societário que culminou na entrada da Kakao como acionista de controle.


YG Entertainment

A YG Entertainment foi fundada em 1996 por Yang Hyun-suk, ex-integrante do grupo Seo Taiji and Boys — considerado o ato que inaugurou o K-pop moderno ao misturar hip-hop americano com pop coreano em 1992. Essa origem moldou o DNA da empresa: enquanto SM e JYP desenvolveram estéticas mais próximas do pop convencional e da dança sincronizada, a YG sempre se posicionou como a label do hip-hop, do R&B e da atitude que destoa do mainstream. O BIGBANG, lançado em 2006, consolidou esse posicionamento e produziu artistas com identidades criativas mais individualizadas do que era padrão na indústria na época.

A estratégia de portfólio reduzido da YG — consistentemente oposta ao modelo de múltiplos grupos simultâneos praticado pela SM e HYBE — tem implicações financeiras e criativas evidentes. Com menos grupos ativos, a empresa concentra investimento em cada lançamento, mas fica mais vulnerável a ciclos longos de inatividade dos artistas principais. O BLACKPINK ficou mais de um ano sem lançar material novo em 2019–2020, e o BIGBANG operou em modo semi-hiato por anos em função dos problemas judiciais envolvendo membros do grupo. A renovação contratual de 2023, na qual todos os quatro membros do BLACKPINK assinaram acordos individuais — e não como grupo — sinalizou uma mudança no equilíbrio de poder entre a label e seus artistas mais lucrativos.

Yang Hyun-suk foi afastado da presidência executiva da YG em junho de 2019 após uma série de escândalos, incluindo acusações de encobertar irregularidades envolvendo artistas da empresa. Seu irmão Yang Min-suk assumiu a gestão, mas a imagem da empresa sofreu impacto duradouro. O lançamento do BABYMONSTER em 2023 foi interpretado como uma tentativa de reposicionar a YG no segmento de grupos femininos de quarta geração, um mercado em que o BLACKPINK havia demonstrado potencial global mas onde a empresa não tinha substituta imediata para o grupo mais lucrativo de seu portfólio.

Fundação1996
SedeSeul, Coreia do Sul
Grupos principaisBIGBANG, BLACKPINK, WINNER, iKON, BABYMONSTER
Receita 2023~₩ 430 bi (~US$ 327M)
ModeloPortfólio reduzido, alta concentração por artista
FATO

Em 2023, os quatro membros do BLACKPINK renovaram contratos individuais com a YG — e não coletivamente como grupo. A distinção é relevante: contratos individuais concedem mais poder de negociação a cada artista e não garantem que o grupo continuará operando como unidade indefinidamente.


JYP Entertainment

A JYP Entertainment foi fundada em 1997 por Park Jin-young, artista que já tinha carreira estabelecida como cantor e compositor antes de criar sua própria empresa. Essa origem de artista-produtor moldou uma cultura interna que a JYP frequentemente descreve como 'personality-first': a empresa investe em artistas com voz pública mais definida e posições sobre temas extramusicais, em contraste com o modelo de imagem mais controlada e neutra praticado pela SM. O TWICE, lançado em 2015 via reality show Sixteen, tornou-se o grupo feminino de K-pop com maior número de singles certificados no Japão e consolidou a JYP como a label sul-coreana com a presença mais consistente no mercado japonês.

A parceria com a Sony Music Japan para o projeto NiziU — grupo formado via reality show transmitido no Japão em 2020 — representou uma expansão do modelo de negócio da JYP além do formato de exportação direta de grupos coreanos. O NiziU opera como uma label japonesa dentro do ecossistema JYP, com repertório majoritariamente em japonês e estratégia de comunicação orientada para o público local. Esse modelo híbrido diferencia a JYP das concorrentes no mercado japonês, onde SM e HYBE operam predominantemente com versões japonesas de grupos já estabelecidos na Coreia. O Stray Kids e o ITZY representam a aposta da empresa na geração atual, com o Stray Kids em particular demonstrando capacidade de construir uma base de fãs global independente de exposição em mercados asiáticos tradicionais.

Fundação1997
SedeSeul, Coreia do Sul
Grupos principaisTWICE, Stray Kids, ITZY, NMIXX, NiziU (Japão)
Receita 2023~₩ 320 bi (~US$ 243M)
DiferencialForte presença no Japão, parceria Sony Music
DADOS

O TWICE acumulou mais de 30 singles certificados no Japão, tornando-se o grupo feminino de K-pop com maior número de certificações na história do mercado fonográfico japonês — resultado direto da estratégia de localização praticada pela JYP desde o debut do grupo em 2015.


Starship Entertainment

A Starship Entertainment foi fundada em 1994 e operou por décadas como uma label de médio porte com presença respeitável no mercado doméstico, especialmente via MONSTA X. A aquisição pela Kakao M em 2018 trouxe capital e infraestrutura de distribuição digital que posicionaram a empresa para crescimento. O ponto de inflexão, no entanto, foi o debut do IVE em novembro de 2021: em menos de doze meses, o grupo conquistou uma base de consumidores suficiente para competir diretamente com grupos das Big Four em premiações de fim de ano, e em 2022–2023 tornou-se o primeiro grupo fora do quarteto dominante a ganhar quatro Daesangs consecutivos nas principais cerimônias de premiação sul-coreanas.

O modelo da Starship com o IVE se distingue pela economia de conceito: ao invés de investir em universos narrativos complexos ou múltiplas sub-unidades, o grupo construiu sua identidade a partir de uma proposta visual e musical coesa, reforçada a cada lançamento. 'ELEVEN', single de debut, ficou entre as faixas mais tocadas do MelOn ao longo de semanas consecutivas — desempenho normalmente reservado a grupos de Big Four. Essa trajetória é analisada com detalhe em IVE e a dominância da quarta geração do K-pop. A receita da Starship cresceu aproximadamente 300% entre 2021 e 2023, reflexo direto do impacto econômico de ter um grupo de nível de Big Four no portfólio.

Fundação1994
SedeSeul, Coreia do Sul
Grupos principaisIVE, MONSTA X, CRAVITY, Kep1er
Receita 2023~₩ 120 bi (~US$ 91M)
ControladorKakao M (desde 2018)
FATO

O IVE foi o primeiro grupo fora das Big Four a conquistar quatro Daesangs consecutivos nas premiações de 2022–2023, quebrando uma barreira histórica que havia resistido por décadas ao surgimento de novos competidores no topo da indústria.


Comparativo das Cinco Gravadoras

HYBEFund. 2005 | BTS, NewJeans | Plataforma Weverse | Receita US$ 1,65 bi
SM EntertainmentFund. 1995 | EXO, aespa, NCT | SM sound + trainee | Receita US$ 685M
YG EntertainmentFund. 1996 | BIGBANG, BLACKPINK | Portfólio reduzido | Receita US$ 327M
JYP EntertainmentFund. 1997 | TWICE, Stray Kids | Japão + personality-first | Receita US$ 243M
Starship EntertainmentFund. 1994 | IVE, MONSTA X | Melhor das médias, Kakao M | Receita US$ 91M

Quem Domina em 2025 e 2026

O cenário da indústria em 2025 e 2026 é marcado por uma redistribuição de poder que nenhum analista havia previsto com precisão em 2020. A HYBE, maior empresa do setor por receita e capitalização de mercado, enfrenta o desafio de gerenciar um portfólio de artistas que inclui desde o BTS — cujos membros estão retornando do serviço militar de forma escalonada em 2024–2025 — até grupos em estágios iniciais de carreira. O conflito com o ADOR e o NewJeans em 2024 revelou que a estratégia de sub-labels independentes, embora eficaz para criar diversidade de produto, introduz riscos de fragmentação institucional que a empresa ainda está aprendendo a administrar. A saída de Min Hee-jin e a posterior mudança de nome do grupo para NJZ — seguida de disputa judicial sobre o uso da marca — criaram um precedente sobre os limites do controle corporativo em relação à propriedade intelectual artística.

A SM, sob controle da Kakao, busca reafirmar relevância com o NCT e o aespa em um mercado cada vez mais competitivo. A YG depende que o BLACKPINK — cujos membros operam crescentemente como artistas solos — mantenha a identidade coletiva suficiente para sustentar o valor da marca. A JYP aposta na expansão americana via Stray Kids e em novos grupos para manter crescimento. Nesse contexto, a Starship emerge como o caso mais interessante: com o IVE consolidado e receita em crescimento acelerado, a empresa demonstrou que o oligopólio das Big Four não é imune à competição quando o produto é suficiente. A questão para 2026 não é se o duopólio HYBE-SM continuará dominante — é se as empresas menores conseguirão transformar sucessos pontuais em infraestrutura institucional capaz de sustentar múltiplos ciclos de artistas.

INFO

O retorno gradual dos membros do BTS do serviço militar em 2024–2025 representa a variável de maior impacto potencial sobre o equilíbrio de receita da indústria. Se o grupo retomar atividades em formato completo, a HYBE consolidará ainda mais sua posição de liderança. Se as carreiras solos tiverem precedência, o mercado pode se fragmentar de forma permanente.

Conclusão

A análise das cinco maiores gravadoras do K-pop revela que o sucesso nessa indústria não é produto de talento isolado, mas de sistemas — sistemas de formação documentados em detalhes no funcionamento do trainee, de distribuição internacional, de gestão de marca e de relacionamento com fandoms. A HYBE transformou o modelo de label musical em plataforma tecnológica. A SM sistematizou a formação artística antes de qualquer concorrente. A YG construiu uma identidade de marca distinta através de escolhas deliberadamente contrárias ao mainstream. A JYP expandiu geograficamente de forma consistente. E a Starship demonstrou que empresas menores podem competir em alto nível se produzirem o produto certo no momento certo.

O que os próximos anos determinarão não é apenas quais artistas terão sucesso — isso sempre foi imprevisível — mas quais estruturas corporativas terão capacidade de adaptar seus modelos a um mercado de consumo de música que está se transformando mais rapidamente do que qualquer label estabelecida havia planejado. A história do BTS e sua trajetória de uma década demonstra que o K-pop é capaz de produzir fenômenos globais. A história do IVE e da Starship demonstra que esses fenômenos não precisam mais emergir exclusivamente das quatro maiores empresas. O duopólio não está morto — mas pela primeira vez em décadas, ele tem competição real.