Quando "Itaewon Class" estreou na JTBC em janeiro de 2020, rapidamente se tornou um dos dramas mais assistidos do ano — Park Seo-joon como o improvável empreendedor que desafia um conglomerado alimentício, com cenas que viralizaram globalmente. O que muitos espectadores não sabiam: a história tinha começado cinco anos antes como um webtoon publicado na KakaoPage por um autor chamado Kwang Jin. O roteiro do drama foi escrito pelo próprio autor do webtoon. As diferenças entre os dois eram mínimas.
Esse caminho — do webtoon para o drama — não é exceção. É um pipeline estruturado que a indústria coreana aperfeiçoou ao longo de mais de uma década. Entender como ele funciona explica por que tantos K-Dramas têm narrativas tão densas e personagens tão desenvolvidos, e por que o ritmo de produção de conteúdo coreano parece impossível para padrões ocidentais.
Por que adaptar webtoons — a lógica da indústria
Do ponto de vista de uma produtora ou emissora, um webtoon popular é um ativo valioso por razões práticas. Primeiro: prova de conceito. Um título com 1 bilhão de visualizações demonstrou que a história funciona, que o público existe e que o engajamento é real. Contratar um escritor para criar um roteiro original é uma aposta; adaptar um webtoon com audiência comprovada reduz o risco.
Segundo: IP pré-construído. O fandom do webtoon já está investido nos personagens e na narrativa. Quando a adaptação é anunciada, esse público existente se torna uma base de marketing gratuita — compartilha notícias, discute casting, cria antecipação. O anúncio de casting de um webtoon popular no Twitter coreano gera trending topic antes mesmo de uma cena ser filmada.
Terceiro: roteiro semi-pronto. Webtoons longos — com 100, 200 episódios — fornecem uma estrutura narrativa detalhada que facilita a adaptação. O roteirista tem referência de arcos, beats dramáticos e desenvolvimento de personagem já testados com audiência real.
Em 2021 e 2022, mais de 30% dos dramas coreanos produzidos pela JTBC, tvN e plataformas de streaming tinham origem em webtoon ou web novel — uma proporção que continua crescendo.
Como o processo acontece na prática
O pipeline começa nas próprias plataformas. A Naver Webtoon Studios e a Kakao Entertainment têm equipes dedicadas a identificar títulos com potencial de adaptação — olham para volumes de leitura, comentários, taxa de engajamento por episódio e queda de leitores (indicador de problemas de ritmo narrativo). Quando um título chama atenção, a plataforma pode fazer uma oferta ao criador pelos direitos de adaptação antes de qualquer produtora externa entrar em cena.
Do outro lado, produtoras e emissoras têm equipes de desenvolvimento que monitoram webtoons em busca de histórias adaptáveis. O processo de negociação dos direitos pode envolver o autor do webtoon, a plataforma (se ela co-detém os direitos) e agentes literários. O autor frequentemente mantém algum grau de envolvimento criativo na adaptação — em vários casos, como "Itaewon Class", o próprio autor escreve o roteiro.
Itaewon Class — o modelo de fidelidade máxima
"Itaewon Class" (JTBC, 2020) é considerado um dos exemplos mais bem-sucedidos de adaptação fiel. Kwang Jin, o autor do webtoon original na KakaoPage, escreveu o roteiro da série preservando a maioria dos arcos narrativos, personagens e até diálogos específicos. O resultado foi uma série que os fãs do webtoon reconheceram e aprovaram, enquanto novos espectadores descobriram a história sem perceber que era uma adaptação.
O elenco — Park Seo-joon, Kim Da-mi, Yoo Jae-myung — e a direção transformaram elementos visuais do webtoon em linguagem cinematográfica sem perder a essência. A trilha sonora, com participação do grupo GFRIEND e outros artistas de K-Pop, funcionou como veículo de marketing adicional. A série foi adquirida pelo Netflix para distribuição global e continua sendo uma das produções coreanas mais assistidas na plataforma.
True Beauty — quando o fandom monitora cada detalhe
"True Beauty" (tvN, 2020) adaptou o webtoon de Yaongyi (publicado na Naver), que tinha mais de 3 bilhões de visualizações acumuladas. O nível de escrutínio foi correspondente: cada decisão de casting foi debatida extensivamente pela fandom global, e a escolha de Moon Ga-young para a protagonista Jugyeong gerou tanto elogio quanto crítica antes mesmo das filmagens começarem.
O drama tomou algumas liberdades em relação ao webtoon — o desfecho do triângulo amoroso foi alterado — o que gerou polarização entre fãs que queriam fidelidade total e espectadores novos que avaliaram o drama pelos próprios méritos. Esse tipo de debate é comum em adaptações de webtoons muito amados: o fandom original compara cada cena, cada diálogo, cada diferença. Para as produtoras, é um sinal de engajamento alto — mesmo quando é crítico.
All of Us Are Dead — da escola para o streaming global
"All of Us Are Dead" (Netflix, 2022) foi o exemplo mais impactante do pipeline webtoon-streaming de alcance global. O webtoon original "Now at Our School", de Joo Dong-geun, havia sido publicado na Naver entre 2009 e 2011. Com mais de uma década de distância entre o original e a adaptação, a produção aproveitou a maturação do mercado de streaming e a infraestrutura da Netflix para distribuição global desde o lançamento.
A série ficou no top 10 do Netflix em mais de 90 países na semana de estreia, tornando-se uma das produções coreanas de maior alcance na plataforma depois de "Squid Game". O sucesso demonstrou que webtoons de mais de dez anos ainda têm potencial de adaptação — e que o gatilho correto (plataforma global, produção de qualidade, timing certo) pode transformar um quadrinho de internet em fenômeno cultural mundial.
As produções catalogadas no HallyuHub incluem fichas detalhadas de dramas com origem em webtoon — com informação sobre a plataforma original, o autor e onde assistir no Brasil. Para conhecer mais sobre como a indústria coreana funciona, o blog cobre o sistema de emissoras, agências e o ecossistema de conteúdo coreano.


