Antes de BTS encher estádios e BLACKPINK quebrar recordes no YouTube, havia um palco muito específico onde carreiras nasciam e morriam em questão de semanas: os reality shows de sobrevivência coreanos. Mais do que entretenimento, esses programas se tornaram a principal fábrica de ídolos da indústria — e, ao longo de duas décadas, mudaram para sempre a forma como o K-Pop funciona.
1. Produce 101 (2016) — o template definitivo do idol moderno#
Quando a MNET estreou Produce 101 em janeiro de 2016, ninguém sabia que estava assistindo a uma revolução. O formato era simples e brutal: 101 trainee girls competindo por 11 vagas em um grupo temporário criado pela audiência. O público votava. Os menos votados eram eliminados ao vivo. O resultado foi a criação do IOI e, mais importante, de um modelo que seria replicado dezenas de vezes nos anos seguintes.
Você sabia?
Produce 101 S1 atraiu mais de 57 milhões de votos no episódio final — em um país com 51 milhões de habitantes. O programa literalmente mobilizou mais votos do que a maioria das eleições do país.
Wanna One
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2. K-Pop Star (2011–2017) — onde o talento vinha antes do treinamento#
Enquanto a MNET apostava em trainees já moldados pelas agências, a SBS criou o K-Pop Star com uma proposta diferente: descobrir diamantes brutos. O programa revelou Park Jimin (não o do BTS), Lee Ha-yi (Lee Hi) e, na temporada mais famosa, a dupla Akdong Musician — que eventualmente assinou com a YG Entertainment. O formato privilegiava expressividade artística em vez de coreografias perfeitas.
Você sabia?
Park Jimin, vencedora da primeira temporada de K-Pop Star, foi a única a escolher a JYP ao invés da SM ou YG — um movimento que surpreendeu toda a indústria à época.
3. Show Me the Money (2012–hoje) — o programa que legitimou o rap coreano#
Antes do SMTM, o hip-hop coreano era um nicho underground. Depois dele, rappers como G-Dragon (como jurado), Zico, Bobby (iKON) e Loco se tornaram figuras mainstream. O programa trouxe o conceito de cypher battles para o grande público e ajudou a construir a cena que eventualmente produziu artistas como BTS — fortemente influenciados pela cultura hip-hop que o SMTM popularizou.
iKON
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4. Unpretty Rapstar (2015–2016) — as mulheres que quebraram o molde#
Em uma indústria dominada pela feminilidade construída pelas agências, Unpretty Rapstar colocou mulheres como Jessi, Hyuna, Yezi e CL em batalhas de rap sem filtros. O programa foi um divisor de águas para a representação feminina no K-Pop alternativo e ajudou a criar o arquétipo da "rapper feminina badass" que hoje é parte fundamental da estética de grupos como BLACKPINK e MAMAMOO.
BLACKPINK
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MAMAMOO
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5. The Unit (2017–2018) — segunda chance para quem não desistiu#
Com um conceito único, The Unit reuniu idols que já haviam debutado mas não conseguiram o sucesso esperado, dando-lhes uma segunda chance em dois grupos temporários: UNB e UNI.T. O programa gerou debates profundos sobre sustentabilidade na carreira de idol e sobre o ciclo cruel de hype e esquecimento que define a indústria.
6. Idol School (2017) — o contraponto feminino do Produce 101#
Produzido pela MNET como sequência espiritual do Produce 101, o Idol School formou o grupo fromis_9, que acabou se tornando um dos grupos mid-tier mais estáveis da indústria — com uma carreira sólida mesmo sem nunca ter dominado charts. O programa também foi envolvido no mesmo escândalo de manipulação de votos que derrubou o Produce.
fromis_9
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7. I-LAND (2020) — Big Hit entra no jogo#
Com a Big Hit Entertainment (atual HYBE) na produção e um conceito sci-fi elaborado, I-LAND elevou os padrões de produção dos survival shows. O programa formou o ENHYPEN, grupo que estreou direto no top tier da indústria e confirmou que o modelo survival ainda era viável mesmo após o escândalo do Produce.
ENHYPEN
Fandom: ENGENE
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Você sabia?
I-LAND foi co-produzido por Bang Si-hyuk, o fundador da Big Hit, e Mnet. O programa teve uma das produções mais caras da história dos survival shows coreanos, com sets construídos exclusivamente para o formato.
8. Girls Planet 999 (2021) — o K-Pop como fenômeno global#
Com participantes da Coreia, China e Japão, Girls Planet 999 foi a aposta da MNET em globalizar o formato survival. O grupo resultante, Kep1er, foi o primeiro a ter uma composição verdadeiramente multinacional desde o modelo JO1/INI no Japão. O programa refletiu como o K-Pop havia se tornado um fenômeno asiático — e mundial.
9. Boys Planet (2023) — a fórmula refinada#
A versão masculina do Girls Planet, Boys Planet formou o grupo ZEROBASEONE (ZB1), que se tornou um dos grupos de maior sucesso em 2023–2024. O programa mostrou uma MNET mais cuidadosa com sua narrativa após anos de escândalos, com maior transparência nos processos de votação.
10. High School Rapper (2017–hoje) — o pipeline do underground#
High School Rapper funciona como o lado B do Show Me the Money: jovens ainda no ensino médio disputando em freestyle battles. O programa descobriu talentos como pH-1, Lee Young-ji e vários outros que hoje são referência na cena independente coreana. É o programa onde o K-Pop ainda parece música antes de ser produto.
Nenhum de nós sabia o que estávamos construindo. Sabíamos que era entretenimento. Não sabíamos que estava se tornando o sistema de recrutamento de uma das indústrias mais lucrativas do mundo.
O escândalo de manipulação de votos do Produce 101, revelado em 2019, resultou em condenações criminais para produtores da MNET e levantou questões que a indústria ainda não respondeu completamente sobre transparência.
O legado: o que esses programas mudaram para sempre#
- Poder para o fã: a votação do público transformou o consumidor em agente ativo na criação de ídolos
- Trainee como celebridade: o processo de treinamento saiu dos bastidores e virou conteúdo
- Grupos temporários: o conceito de grupos com prazo de validade se normalizou
- Competição como formato: o survival show exportou a lógica competitiva para quase todo variety show de música
- Escrutínio público: trainees passaram a ser observados por fãs muito antes do debut oficial
O K-Pop de hoje não existiria sem esses programas. E a pergunta que permanece é: após o escândalo, após a saturação, o modelo ainda sustenta o mesmo nível de engajamento? A resposta, com Boys Planet e o sucesso do ZB1, parece ser um sim cauteloso. O formato evoluiu — mas a fórmula básica de sonhos, câmeras e eliminações ao vivo continua operacional.
