São 23h de uma quinta-feira em Seul. As ruas do bairro de Daechi-dong, no distrito de Gangnam, estão iluminadas. Não por bares ou restaurantes — mas por academias de reforço escolar. Crianças e adolescentes de 7 a 18 anos entram e saem de prédios comerciais com a mochila nas costas. Alguns ainda têm o uniforme da escola regular. É o hagwon em plena operação: um sistema que nunca dorme, nunca fecha e que consome mais dinheiro das famílias coreanas do que a maioria dos países gasta com saúde.
O que é um hagwon#
Hagwon (학원) significa literalmente "academia de aprendizado". Na prática, é uma escola privada de reforço que funciona em paralelo à escola regular — cobrindo matérias do currículo escolar, idiomas, artes, esportes, música e praticamente qualquer habilidade imaginável. A diferença fundamental entre um hagwon e um cursinho brasileiro é a intensidade sistêmica: o hagwon não é um suporte ocasional, é parte estrutural da rotina de quase toda criança coreana de classe média.
A anatomia de um dia típico de estudante coreano#
Para entender o hagwon, é preciso entender o dia de um estudante coreano. A escola regular começa por volta das 8h. As aulas terminam às 15h ou 16h. Mas o dia de estudos está longe de acabar. O estudante vai para casa, faz uma refeição rápida e segue para o primeiro hagwon — normalmente inglês ou matemática. Termina às 19h. Vai para o segundo hagwon — talvez ciências ou coreano. Termina às 21h. Faz o dever de casa. Dorme às 0h ou 1h da manhã. Repete no dia seguinte.
- 07:30 — chegada na escola regular
- 08:00-15:30 — aulas regulares + atividades escolares
- 16:00-18:00 — hagwon de inglês ou matemática
- 18:30-20:30 — hagwon de ciências ou coreano
- 21:00-23:30 — dever de casa + estudo autônomo
- 00:00 — dormir (em média 5-6 horas)
Você sabia?
A cidade de Daechi-dong, em Gangnam, é chamada de "República dos Hagwons". Em um único quarteirão de 500 metros, existem mais de 200 academias. O preço médio de um apartamento na área subiu 40% em 10 anos — parcialmente impulsionado pela proximidade de hagwons de elite, que funcionam como um fator imobiliário real.
Por que os pais pagam — e continuam pagando#
O custo mensal de um hagwon varia de 200 mil a 2 milhões de won (R$800 a R$8.000) dependendo da especialidade e reputação. Famílias de classe média frequentemente matriculam os filhos em 3 ou 4 hagwons simultâneos. O raciocínio é simples e brutal: a Suneung — o vestibular coreano — determina a qual universidade o estudante pode entrar. A universidade determina o primeiro emprego. O primeiro emprego determina o salário pelo resto da vida. Não frequentar hagwon é, na percepção de muitos pais, colocar o filho em desvantagem permanente.
Eu sei que estou pagando para que meu filho passe mais tempo estudando do que dormindo. Mas se eu não pagar, e todos os outros pais pagarem, meu filho vai entrar em qual universidade?
Os tipos de hagwon: do inglês ao K-pop#
O universo dos hagwons é muito mais diverso do que parece. Existem hagwons para praticamente toda habilidade ou interesse:
- Hagwon de inglês (영어학원): o mais comum — crianças a partir dos 5 anos. Foco em conversação, gramática e preparação para testes internacionais (TOEIC, TOEFL)
- Hagwon de matemática: segundo mais comum — resolução intensiva de problemas, preparação para olimpíadas
- Hagwon de ciências: preparação específica para provas de ciências da Suneung
- Hagwon de taekwondo: esporte + disciplina — muito popular para crianças pequenas
- Hagwon de piano/violino: música clássica — presença quase obrigatória na infância coreana
- Hagwon de dança/K-pop: voltado para trainees aspirantes a idols
- Hagwon de codificação: crescimento explosivo pós-2020 com a onda de tech
- Hagwon de arte/desenho: preparação para vestibulares de artes visuais
O mercado bilionário e seus players#
O setor de hagwons é um mercado capitalista puro. Existem redes nacionais com centenas de franquias — como Chungdahm, YBM, Avalon (inglês) e Jaesu, Etoos, Megastudy (preparação universitária). A competição entre hagwons é feroz: resultados de aprovação nas universidades SKY são divulgados como propaganda. Os melhores professores de hagwon são celebridades — ensinando para turmas de 300 alunos ou com cursos online que faturam milhões.
Você sabia?
O professor Hyun-Jung Kang, do hagwon Megastudy, ganhou o apelido de "o professor de matemática mais rico da Coreia" — com faturamento anual estimado em mais de 8 bilhões de won (R$ 32 milhões) entre aulas presenciais e plataforma online. Na Coreia, os melhores professores de hagwon ganham mais do que médicos.
A regulação que nunca funciona completamente#
O governo coreano reconhece há décadas que o sistema de hagwons é problemático. Em 2009, o então presidente Lee Myung-bak tentou limitar o horário de funcionamento: hagwons não poderiam funcionar após as 22h. A lei existe até hoje. O resultado na prática? Hagwons clandestinos que funcionam disfarçados de "grupos de estudo privados". Inspeções noturnas revelam regularmente academias operando após o limite. A demanda é tão forte que a regulação simplesmente não consegue conter o mercado.
Em 2023, o governo de Yoon Suk-yeol anunciou nova tentativa de regulação — desta vez focando em hagwons que vendem material didático de nível universitário para crianças do ensino fundamental. A prática, chamada de "선행학습" (aprendizado antecipado), é formalmente proibida mas amplamente praticada.
O hagwon como divisor de classes#
O aspecto mais perturbador do sistema é o que ele faz com a igualdade de oportunidades. Famílias ricas podem pagar por hagwons de elite, com turmas pequenas, professores com PhDs no exterior e materiais exclusivos. Famílias pobres não podem. O resultado: o vestibular deveria ser uma meritocracia pura — o estudante mais inteligente entra na melhor universidade. Na realidade, é uma meritocracia comprada: o estudante cujos pais investiram mais em hagwons tem vantagem estrutural.
O hagwon visto de dentro: professores falam#
Ser professor de hagwon é uma profissão com dois mundos distintos. Os professores de redes famosas, com histórico de aprovações em universidades de ponta, são tratados como celebridades e ganham salários correspondentes. Os professores comuns de hagwons pequenos frequentemente trabalham sem contrato fixo, em turnos até meia-noite, sem os benefícios que professores de escola pública têm. A rotatividade é altíssima.
Você sabia?
Estrangeiros — especialmente falantes nativos de inglês — são muito requisitados nos hagwons de inglês coreanos. O programa EPIK (English Program in Korea) do governo ajuda hagwons e escolas públicas a contratar professores de países anglófonos. Estima-se que entre 15.000 e 20.000 professores estrangeiros trabalhem em hagwons na Coreia atualmente.
Hagwons de K-pop: o caso especial#
Uma categoria única dos hagwons coreanos são as academias voltadas para quem quer se tornar idol. Localizados principalmente em Gangnam e Mapo, esses hagwons ensinam canto, dança, rap, composição e até "como se comportar em audições". As agências de K-pop como HYBE, SM e JYP costumam fazer parcerias ou recrutam diretamente de certas academias. Para muitos jovens, frequentar esses hagwons é o caminho oficial para uma audição.
O hagwon além da Coreia: exportando o modelo#
O modelo de hagwon está sendo exportado. Nos Estados Unidos, em cidades com grande comunidade coreana como Los Angeles e Nova York, redes de hagwons operam legalmente. No Brasil, especialmente em São Paulo, alguns centros educacionais da comunidade coreana têm características parecidas. O modelo online — acelerado pela pandemia — expandiu o alcance de cursos estilo hagwon para qualquer país com acesso à internet.
O que o Brasil pode aprender (e o que deve evitar)#
O sistema de hagwons tem aspectos que merecem atenção positiva e negativa. Do lado positivo: a cultura de valorização do conhecimento, a seriedade com que as famílias tratam a educação e o investimento real em aprendizado. Do lado negativo: a exaustão crónica de crianças, a desigualdade de oportunidades estruturada pelo dinheiro e os indicadores alarmantes de saúde mental na juventude coreana. O Brasil tem seus próprios problemas educacionais — copiar o modelo de pressão sem copiar os recursos públicos de base seria o pior dos mundos.
- Aprender com a Coreia: comprometimento familiar com educação, seriedade no ensino de idiomas desde cedo, mercado de cursos online acessível
- Não copiar: jornada de 16h/dia de estudos para crianças, pressão suicidogênica, hierarquia de universidades que determina toda a vida
- O paradoxo: países com menos pressão educacional frequentemente têm indicadores de bem-estar melhores — Finlândia lidera ambos
“O hagwon é o espelho mais honesto da Coreia do Sul: uma sociedade que acredita profundamente que esforço e investimento em conhecimento constroem o futuro — mas que ainda não encontrou a forma de fazer isso sem cobrar um preço imenso do bem-estar de suas crianças.”